ABSTRACT
OBJECTIVES: to evaluate changes in breast cancer care among women assisted at a public hospital in Paraíba, Brazil, during the COVID-19 pandemic.
METHODS: retrospective cohort of women using the Sistema Único de Saúde (SUS) (Brazilian Public Health Service) at Hospital Napoleão Laureano (PB), and were diagnosed with in situ or invasive ductal carcinoma in the pre-pandemic (2017-2018) and pandemic (2020) periods. Sociodemographic, clinical and care-related data were collected. Differences between periods were assessed using chi-square or Fisher's exact test for categorical variables and Student's t or Mann-Whitney tests, for continuous variables (p<0.05).
RESULTS: among 218 women included, 114 were treated before the pandemic and 104 during. Most cases were palpable tumors and invasive carcinoma. Mastectomy was the predominant procedure, with immediate reconstruction in 24.8%. The interval between histopathological diagnosis and the first consultation with a specialist increased during the pandemic (p=0.04), and few women outside the capital could access the service (RR=0.63; 95%CI= 0.4-0.9; p=0.01). Delays on the appointment and abandonment of treatment were also higher during the pandemic, whereas immediate breast reconstruction decreased.
CONCLUSION: the pandemic hindered breast cancer care, increasing delays, interruptions of treatment, and reducing immediate reconstructions. These findings highlight the vulnerability of patients dependent of the public health services during health crises.
Keywords:
Neoplasias da mama, SARS-CoV-2, Pandemia, Diagnóstico tardio, Tempo para o tratamento
IntroduçãoO câncer de mama é o tipo de câncer mais comum na população feminina, representando a quinta causa de morte por câncer em geral e a causa mais frequente de óbito por câncer entre mulheres.
1 A detecção precoce, associada ao tratamento em estágios iniciais, constitui a melhor estratégia para reduzir a mortalidade pela doença.
Atualmente, a mamografia é a técnica de imagem de escolha para o rastreamento do câncer de mama, e está bem estabelecido que o rastreamento mamográfico é eficaz para mulheres de 50 a 74 anos de idade.
2-4 Por outro lado, estudos têm chamado atenção para a importância de incluir a faixa etária de 40 a 49 anos nos programas de rastreamento, com algumas publicações demonstrando redução de até 25% na mortalidade por câncer de mama nesse grupo etário.
5-7O atraso no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama resulta em estágios mais avançados na apresentação inicial e se correlaciona com redução da sobrevida.
8 Além das barreiras psicológicas, socioeconômicas e culturais amplamente reconhecidas, um novo obstáculo surgiu ao final de 2019: a Covid-19. A disseminação do SARS-CoV-2 levou a interrupções sem precedentes nos sistemas de saúde.
9,10Políticas de
lockdown, suspensão de serviços não urgentes e recomendações de sociedades profissionais causaram interrupção ampla do rastreamento do câncer de mama e adiamento de consultas de rotina e cirurgias eletivas. Embora atrasos de curto prazo no rastreamento tenham sido inicialmente considerados pouco prováveis de afetar a mortalidade, diversos estudos posteriormente relataram reduções em exames de imagem, procedimentos diagnósticos e cirurgias oncológicas, particularmente em países de baixa e média renda.
11,12Muitos países adiaram cirurgias oncológicas eletivas para realocar recursos de saúde para o tratamento de pacientes afetados pela pandemia.
13 O Brasil não foi exceção. Apesar de ser orientado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o país enfrentou desigualdades marcantes no acesso ao cuidado oncológico especializado, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
1 Nesses contextos, restrições no transporte, realocação de recursos hospitalares e o medo da Covid-19 agravaram atrasos preexistentes. A Paraíba (PB), estado com significativa vulnerabilidade socioeconômica, depende fortemente de um único centro de referência, que atende mais de 70% dos casos de câncer no âmbito do SUS.
2 Compreender como a pandemia afetou os itinerários diagnósticos e o tratamento nesses contextos é essencial para orientar a preparação para emergências e fortalecer o cuidado oncológico.
Nesse sentido, o objetivo do estudo foi determinar mudanças no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama entre mulheres atendidas no hospital público de referência na Paraíba durante a pandemia de Covid-19, comparando indicadores dos períodos pré-pandêmico e pandêmico.
MétodosFoi realizado um estudo de coorte retrospectiva para descrever mudanças no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama entre mulheres usuárias do SUS no estado da Paraíba. O local selecionado para o estudo foi o Hospital Napoleão Laureano, principal hospital de referência em câncer do estado, responsável por atender 72,2% de todos os pacientes oncológicos na Paraíba, provenientes tanto da rede pública quanto da privada, porém predominantemente do setor público.
2 Foram seguidas as diretrizes da iniciativa
Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE):
Guidelines for Reporting Observational Studies.
14Os prontuários de pacientes elegíveis foram selecionados de acordo com os seguintes critérios de inclusão: mulheres com diagnóstico de ICD-10 D05.1 (carcinoma intraductal in situ da mama / ductal carcinoma in situ – DCIS) e/ou ICD-10 C50 (neoplasia maligna da mama, que abrange todos os carcinomas invasivos de mama, sejam ductais, lobulares ou de outro sítio especificado dentro da mama, incluindo qualquer estágio e qualquer tipo histológico), usuárias do SUS. Os critérios de exclusão consistiram em prontuários incompletos ou ausentes. Foram excluídos prontuários nos quais o diagnóstico ou o tratamento estivesse incompleto ou tivesse sido realizado predominantemente em outra instituição, resultando em informação ausente ou insuficiente.
O estudo analisou prontuários médicos do período entre novembro de 2017 e outubro de 2018 (período pré-pandêmico) e entre janeiro e dezembro de 2020 (período pandêmico). O ano de 2019 foi excluído porque casos foram diagnosticados antes da pandemia, mas os tratamentos se estenderam para o período pandêmico, dificultando uma distinção clara entre os intervalos analisados.
As variáveis analisadas foram coletadas dos prontuários e consistiram em: características biológicas, sociodemográficas e de estilo de vida e comorbidades (idade, peso, altura, índice de massa corporal [IMC], classificação do peso, cor/etnia, escolaridade, local de residência, tabagismo e consumo de álcool); características reprodutivas (menarca,
status menopausal, número de gestações, número de partos, amamentação, uso de contracepção hormonal, uso de terapia hormonal); características clínicas (queixa principal, achados ao exame clínico, tamanho da lesão ao exame clínico, estadiamento ao diagnóstico, modalidade diagnóstica, achados de imagem, achados histopatológicos, estadiamento pós-operatório, subtipo molecular e modalidades de tratamento) e características do cuidado prestado após a hipótese diagnóstica/indicadores de impacto da pandemia (tempo entre a detecção de achados suspeitos em exames de imagem e o início do tratamento — e seus intervalos parciais, o percentual de consultas perdidas com retorno da paciente em data posterior à previamente agendada, e o percentual de pacientes que abandonaram o tratamento).
A estatística descritiva incluiu frequências, médias e desvios-padrão para variáveis com distribuição normal, e medianas e intervalos interquartis (IIQ) para distribuições assimétricas. Diferenças entre os períodos foram avaliadas por teste qui-quadrado ou teste exato de Fisher para variáveis categóricas e testes
t de Student ou Mann-Whitney para variáveis contínuas, conforme a distribuição. Foram estimados riscos relativos (RR) e intervalos de confiança de 95% (IC95%). As análises foram realizadas no Epi Info 3.5.4, considerando
p<0,05 como estatisticamente significativo.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira, Brasil (protocolo nº 5.574.350/2022), em conformidade com as normas nacionais e os princípios da Declaração de Helsinki. Foi obtido consentimento livre e esclarecido por escrito das participantes antes da coleta de dados. Quando não foi possível estabelecer contato após múltiplas tentativas, a exigência de consentimento informado foi dispensada pelo Comitê de Ética, com estrita observância das normas nacionais de confidencialidade e sigilo de dados.
ResultadosUm total de 218 mulheres preencheu os critérios de inclusão, sendo 114 no período pré-pandêmico e 104 durante a pandemia (Figura 1).
A mediana de idade foi semelhante entre os grupos (54
vs. 53,5 anos). A maioria das mulheres era parda, com sobrepeso ou obesidade, e apresentava baixa escolaridade, sem diferenças relevantes entre os períodos (Tabela 1).
A apresentação clínica predominante foi um nódulo mamário palpável, sendo a maioria dos tumores carcinomas invasivos, principalmente carcinoma ductal invasivo, estágio II e subtipo luminal. O tratamento cirúrgico consistiu majoritariamente em mastectomia, com reconstrução imediata realizada em 24,8% dos casos no total (dados não apresentados em tabela).
Ao comparar os períodos, surgiram diferenças significativas no acesso e nos fluxos de cuidado. Mulheres residentes fora da capital do estado e de sua região metropolitana tiveram menor probabilidade de acessar o hospital de referência durante a pandemia (RR=0,63; IC95%=0,4–0,9;
p=0,01). O intervalo entre o diagnóstico histopatológico e a primeira consulta com especialista aumentou de mediana de 27 dias no período pré-pandêmico para 35 dias no período pandêmico (
p=0,049). Outros intervalos diagnósticos não apresentaram diferenças significativas (Tabela 2).
Embora o estadiamento ao diagnóstico não tenha diferido significativamente entre os grupos, a reconstrução mamária imediata diminuiu de forma acentuada durante a pandemia (33,3% vs. 15,6%; RR=0,46; IC95%=0,2–0,8;
p=0,009) (Tabela 3).
Indicadores de continuidade do cuidado foram negativamente impactados. O abandono do tratamento aumentou de 1,8% para 10,6% durante a pandemia (RR=6,02; IC95%=1,3–6,5;
p=0,006). A ocorrência de atrasos registrados em qualquer ponto durante o tratamento foi mais frequente no período pandêmico (8,8% vs. 41,3%; RR=4,71; IC95%=2,4–8,8;
p<0,0001). Cirurgias adiadas (0,9% vs. 17,3%; RR=19,7;
p<0,0001) e atrasos por falta de material ou medicação (0,9% vs. 8,7%; RR=9,86;
p=0,006) também foram significativamente mais frequentes durante a pandemia (Tabela 4).
DiscussãoEste estudo comparou o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama antes e durante a pandemia de Covid-19 na Paraíba e mostrou que as interrupções mais relevantes ocorreram no acesso ao cuidado especializado e na continuidade do tratamento. Os atrasos, particularmente por cirurgias adiadas e falta de medicação, tornaram-se substancialmente mais frequentes, e a reconstrução mamária imediata diminuiu de forma marcada. O medo da Covid-19 foi um motivo frequente para faltas às consultas, e a redução do comparecimento entre mulheres residentes fora da região metropolitana evidenciou como restrições de deslocamento e a concentração de serviços intensificaram barreiras já existentes.
Houve redução acentuada no cuidado ao câncer de mama durante a pandemia.
15,16 Um achado preocupante no presente estudo foi a redução do atendimento de mulheres residentes fora da capital do estado ou da região metropolitana. Isso provavelmente reflete barreiras de mobilidade e a concentração dos serviços oncológicos em um único centro de referência, o que já representava desafio antes da pandemia, mas se tornou mais pronunciado com as restrições de deslocamento.
Não houve diferença significativa no tempo entre achado suspeito em imagem e diagnóstico histopatológico. Embora os intervalos diagnósticos iniciais tenham permanecido estáveis, o cumprimento de prazos legalmente estabelecidos continua sendo desafiador. A legislação brasileira exige confirmação diagnóstica em até 30 dias e início do tratamento em até 60 dias, porém os atrasos já eram comuns antes da pandemia.
17,18 Neste estudo, o tempo mediano entre diagnóstico e início do tratamento excedeu ligeiramente 60 dias em ambos os períodos, indicando que o sistema já operava sob tensão estrutural mesmo antes da Covid-19.
A pandemia intensificou vulnerabilidades preexistentes no Nordeste brasileiro, onde serviços especializados se concentram nas capitais e onde desvantagens socioeconômicas e longas distâncias de deslocamento limitam o acesso ao cuidado oncológico.
19,20 Essas barreiras estruturais provavelmente contribuíram para o abandono do tratamento e para a redução marcada da reconstrução mamária imediata observada neste estudo, um padrão também relatado em centros europeus durante períodos de capacidade cirúrgica restrita.
21,22Um estudo realizado no Brasil em 2019 para avaliar a estrutura dos serviços públicos de saúde no país mostrou que centros de atenção especializada no SUS são poucos e se concentram nas capitais, resultando em cobertura insuficiente para populações rurais. A distância e o custo do deslocamento agravam essas disparidades.
19 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase metade da pobreza do país está concentrada no Nordeste.
20 Essa vulnerabilidade foi amplificada pela pandemia em todos os níveis de atenção.
Os atrasos no tratamento foram marcadamente mais frequentes durante a pandemia, em consonância com evidências internacionais de aumento do risco oncológico quando a cirurgia é postergada. A escassez de materiais cirúrgicos e a sobrecarga hospitalar durante ondas de Covid-19 também interromperam o cuidado. Os efeitos combinados de atrasos, incerteza e medo contribuíram para faltas às consultas e maior sofrimento psicossocial, conforme relatado mundialmente.
23,24O abandono do tratamento aumentou mais de seis vezes durante a pandemia, padrão também descrito em outros contextos oncológicos na Covid-19. Neste estudo, o medo de infecção e as restrições logísticas foram motivos frequentes para faltas, sugerindo que o sofrimento psicológico atuou em conjunto com barreiras estruturais para interromper a continuidade do cuidado.
24,25Este estudo tem limitações. Seu delineamento retrospectivo dependeu da completude dos prontuários, o que levou à exclusão de casos com informação insuficiente e limitou a análise de algumas variáveis clínicas. A avaliação ficou restrita a um único centro público de referência, o que pode não captar toda a heterogeneidade do cuidado ao câncer de mama no estado. Além disso, os períodos do estudo não permitiram avaliar desfechos de longo prazo nem o efeito cumulativo das interrupções no rastreamento sobre o estadiamento ao diagnóstico. Por fim, não foi possível acompanhar mulheres que abandonaram o tratamento, restringindo conclusões sobre consequências clínicas subsequentes.
O estudo também tem pontos fortes. Analisou uma coorte abrangente de mulheres atendidas no SUS, com extração padronizada de dados em dois períodos bem definidos. Ao situar os achados em uma região caracterizada por vulnerabilidade socioeconômica e alta dependência de um único centro oncológico, o estudo oferece uma compreensão contextual relevante de como a pandemia de Covid-19 interrompeu itinerários de cuidado em cenários onde barreiras estruturais já estavam presentes. A inclusão de indicadores detalhados de intervalos de tempo adiciona precisão à avaliação de atrasos diagnósticos e terapêuticos.
Em conclusão, a pandemia de COVID-19 exacerbou vulnerabilidades preexistentes no cuidado ao câncer de mama na Paraíba, levando à redução do acesso para mulheres residentes fora da região metropolitana, aumento de atrasos, maior abandono do tratamento e queda substancial na reconstrução mamária imediata. Embora os intervalos diagnósticos iniciais tenham permanecido relativamente estáveis, a continuidade do cuidado foi significativamente afetada. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias que fortaleçam redes de referência, descentralizem a capacidade diagnóstica e protejam serviços oncológicos durante emergências de saúde pública, particularmente em regiões onde o acesso é estruturalmente limitado.
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Contribuição dos autoresRamalho TC: conceitualização, curadoria de dados, investigação, análise formal, redação – rascunho original.
Katz L: conceitualização, metodologia, supervisão, redação – revisão e edição.
Ramalho IC: curadoria de dados, investigação, validação, redação – revisão e edição.
Carneiro da Cunha ACM: investigação, visualização, redação – revisão e edição.
Amorim MMR: conceitualização, metodologia, administração do projeto, supervisão, redação – revisão e edição.
Todos os autores aprovaram a versão final do artigo e declaram não haver conflito de interesse.
Disponibilidade de dadosTodos os conjuntos de dados que dão suporte aos resultados deste estudo estão incluídos no artigo.
Recebido em 15 de Junho de 2025
Versão final apresentada em 28 de Novembro de 2025
Aprovado em 30 de Dezembro de 2025
Editor Associado: Alex Sandro Souza