A prematuridade e suas consequências tornaram-se um problema global de saúde pública.
1 No Brasil, apesar dos avanços científicos e dos investimentos em saúde materno-infantil, o processo de identificação, análise e encaminhamento de crianças em risco ainda carece de organização, especialmente entre os recém-nascidos prematuros que vivem em regiões vulneráveis.
2 O cuidado precoce e sistemático melhora significativamente o prognóstico, promove o desenvolvimento funcional, controla condições de saúde associadas e favorece a inclusão escolar e a participação social.
3,4 No entanto, os atuais modelos de atenção à saúde da criança ainda são limitados para atender às necessidades específicas desses bebês e tratar atrasos no desenvolvimento.
2,5Em setembro de 2025, foi sancionada no Brasil a Lei nº 15.198, que trata das ações de enfrentamento ao parto prematuro e institui o Novembro Roxo, o Dia Nacional da Prematuridade e a Semana de Conscientização da Prematuridade. Essa lei enfatiza a importância da sensibilização sobre a prematuridade desde o pré-natal e define medidas básicas de cuidado a serem seguidas pelas unidades de saúde, como o seguimento pós-alta em ambulatórios especializados com equipe multidisciplinar até pelo menos dois anos de idade, orientação e capacitação dos pais de bebês prematuros sobre necessidades de cuidados especiais e encaminhamento precoce para serviços especializados.⁶ Essas medidas visam melhorar o funcionamento dos serviços de saúde e ampliar o foco nos bebês prematuros e suas famílias.
Embora a lei esteja alinhada aos princípios da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança e às diretrizes nacionais de saúde materno-infantil,⁶ na prática, a Atenção Primária à Saúde, organizada pela Estratégia Saúde da Família, é responsável por absorver essa demanda. Entretanto, as redes de atenção à saúde ainda enfrentam desafios para oferecer cuidado interdisciplinar e contínuo, principalmente devido à sobrecarga dos serviços e à priorização de condições clínicas mais graves.
Na Atenção Primária à Saúde ainda não existe um serviço específico para o acompanhamento e o cuidado integral de bebês prematuros.⁷ Essa lacuna pode comprometer a continuidade do cuidado e a implementação de estratégias de intervenção precoce, já que crianças com condições clínicas mais graves são priorizadas quando disputam as vagas disponíveis.⁷ Essa dinâmica perpetua uma abordagem de esperar para ver, na qual as limitações precisam se tornar evidentes para que o cuidado especializado seja oferecido.
5Dados do DATASUS referentes ao período de 2018 a 2022 mostram que bebês prematuros brasileiros recebem, em média, menos de uma consulta de intervenção precoce durante o primeiro ano de vida. Além disso, a centralização do cuidado especializado representa uma grande barreira para a cobertura universal. No Brasil, 64,8% dos pediatras estão concentrados em capitais e regiões metropolitanas e 51% estão na região Sudeste.⁸ Além disso, muitos serviços especializados de seguimento adotam uma abordagem reativa baseada na lógica do esperar para ver, o que resulta em encaminhamentos tardios apenas após a confirmação de atrasos no desenvolvimento.
5Essas limitações dificultam a identificação precoce de crianças em risco para transtornos do desenvolvimento, gerando impactos negativos a longo prazo na saúde e na qualidade de vida das famílias.
5 Também tornam o cuidado de bebês prematuros particularmente desafiador em regiões socioeconomicamente desfavorecidas.
2 Nessas áreas, é comum haver escassez de recursos e barreiras sociais, como falta de transporte, dificuldades financeiras e baixa escolaridade dos cuidadores.
2,5 A combinação desses fatores contribui para tornar essas famílias invisíveis dentro dos serviços de saúde.
Dados preliminares de um estudo observacional realizado por nosso grupo de pesquisa em uma maternidade de referência para gestações de alto risco no nordeste do Brasil mostraram que apenas 7,4% dos bebês prematuros compareceram ao ambulatório de seguimento no primeiro mês de vida, além da consulta pediátrica de rotina. Esse achado sugere uma lacuna na continuidade do cuidado, baixa adesão ao seguimento durante a transição do hospital para o domicílio e possíveis barreiras ao acesso aos serviços.⁹ Esses fatores podem afetar negativamente o desenvolvimento infantil.
Outra forma de interpretar essa baixa adesão é considerar que muitas famílias têm compreensão limitada sobre a importância do monitoramento do desenvolvimento e da intervenção precoce.
1⁰ Em um estudo recente realizado com mães de bebês prematuros hospitalizados em uma maternidade de referência, a maioria das participantes demonstrou pouco conhecimento sobre o significado da prematuridade, os marcos do desenvolvimento e a intervenção precoce.
1⁰ Esses achados reforçam a necessidade de trajetórias de cuidado ao desenvolvimento estruturadas e centradas na família, que facilitem o acesso aos serviços e fortaleçam a compreensão dos cuidadores sobre seu papel no desenvolvimento da criança.
Em países europeus verificou-se que o tratamento de condições graves de desenvolvimento na primeira infância pode gerar economia de até um milhão de euros por indivíduo ao longo da vida.
3 Esses resultados destacam a importância de reduzir o tempo até a investigação, o diagnóstico e o encaminhamento na primeira infância, pois essa antecipação melhora o prognóstico de crianças em risco e otimiza os investimentos em saúde pública. No entanto, países em desenvolvimento e regiões socioeconomicamente vulneráveis, como o Brasil, enfrentam desafios ainda maiores para alcançar esses resultados.
Nesse cenário, a implementação de protocolos baseados em ferramentas e procedimentos padronizados para identificar riscos de atrasos no crescimento e no desenvolvimento durante a hospitalização, aliada a um sistema regulador para o cuidado domiciliar que capacite os cuidadores a apoiar o desenvolvimento dos bebês prematuros, pode representar uma solução viável e economicamente sustentável. Essa abordagem, centrada na transição do hospital para o domicílio, é embasada em experiências bem-sucedidas de países como Estados Unidos e Austrália, onde o monitoramento nesse período é amplamente aplicado.
4,11Programas como o
Supporting Play, Exploration, and Early Development Intervention, conhecido como SPEEDI, combinam intervenção precoce com apoio às famílias, envolvendo pais e cuidadores de recém-nascidos de alto risco desde o período neonatal até o ambiente domiciliar.
11 Estudos anteriores sobre o programa indicam resultados promissores. Bebês prematuros que receberam a intervenção apresentaram melhor desenvolvimento motor aos três meses de idade corrigida, maior habilidade de resolução de problemas aos cinco e sete meses e escores mais altos de cognição, linguagem e motricidade aos doze meses, quando comparados aos que receberam o cuidado padrão.
11,12A adoção de estratégias semelhantes no Brasil poderia capacitar as famílias a apoiar melhor o desenvolvimento de seus filhos e promover um sistema de saúde mais equitativo, eficiente e centrado na família. Esta proposta não substitui os programas já existentes de seguimento neonatal, mas busca qualificar os serviços ofertados e fortalecer a compreensão dos cuidadores sobre seu papel no desenvolvimento da criança, garantindo que as famílias desses "pequenos guerreiros" possam continuar promovendo o desenvolvimento e a estimulação durante a transição do hospital para o lar. Já temos evidências científicas, experiência internacional e, agora, um novo marco legal. O que estamos esperando para mudar a forma como cuidamos dos nossos bebês prematuros?
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AgradecimentosAgradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Concessão/Número: Código 001, e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Brasil), Concessão Número: 441583/2023-7 e 400980/2025-8 pelo apoio financeiro.
Contribuição dos autoresSilva RC: concepção, desenho do estudo, revisão da literatura, escrita do manuscrito.
Montemezzo D: concepção, desenho do estudo, revisão da literatura, rascunho do manuscrito.
Silva NF: concepção, desenho do estudo.
Lima-Alvarez CD e Pereira SA: concepção, desenho do estudo, escrita do manuscrito, supervisão.
Todos os autores aprovaram a versão final do artigo e declaram não haver conflito de interesse.
Disponibilidade dos dados:Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Recebido em 4 de Novembro de 2025
Versão final apresentada em 19 de Novembro de 2025
Aprovado em 21 de Novembro de 2025
À convite do Editor Chefe: Lygia Vanderlei