IntroduçãoA infecção pelos vírus linfotrópicos de células T humanas (HTLV-1 e HTLV-2) permanece historicamente negligenciada no Brasil, apesar de o país figurar entre aqueles com maior número absoluto de pessoas infectadas no mundo. Em 2025, o Ministério da Saúde publicou a Nota Técnica Conjunta nº 6/2025, com o objetivo de orientar a atenção à gestante, à parturiente e ao recém-nascido em contextos de infecção por HTLV, respondendo a uma demanda legítima por padronização de condutas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
1A Nota Técnica apresenta avanços relevantes. Entre eles, destacam-se o reforço da triagem sorológica no pré-natal, a ênfase na confirmação diagnóstica antes de decisões irreversíveis, a reafirmação da amamentação como principal via de transmissão vertical do HTLV-1 e a recomendação de oferta de fórmula infantil associada à inibição farmacológica da lactação.
1 Essas medidas estão sustentadas por décadas de evidência consistente e representam estratégias efetivas de prevenção da transmissão vertical. Também é meritório o esforço em integrar o cuidado materno-infantil, reconhecer vulnerabilidades sociais associadas ao HTLV e propor fluxos assistenciais no SUS, contribuindo para reduzir a invisibilidade dessa infecção.
Entretanto, ao lado desses avanços, a Nota Técnica adota uma recomendação alargada de cesariana eletiva como via de nascimento preferencial para gestantes com HTLV-1 ou HTLV-2 confirmado, independentemente de fatores clínicos ou obstétricos. Essa recomendação contrasta com o próprio reconhecimento, presente no documento, de que as evidências sobre o papel da via de parto na transmissão vertical do HTLV são limitadas. Essa dissonância entre a fragilidade da evidência disponível e a força da recomendação proposta suscita questionamentos centrais sob a ótica da medicina baseada em evidências, da ética em saúde e da racionalidade do uso de recursos públicos no SUS.
Este artigo de ponto de vista tem como objetivo analisar criticamente a Nota Técnica Conjunta nº 6/2025, reconhecendo suas contribuições relevantes, mas discutindo de forma fundamentada os limites da evidência científica que sustenta a recomendação de cesariana eletiva. O presente texto não se propõe a formular recomendações normativas alternativas, mas sim a estimular o debate científico qualificado sobre o tema. Argumenta-se que, na ausência de ensaios clínicos randomizados — cuja realização enfrenta barreiras éticas e práticas substanciais — e diante de estudos observacionais que até o momento não demonstraram efeito protetor independente da cesariana, a recomendação de cesariana eletiva universal para gestantes com HTLV carece de sustentação robusta na literatura disponível. Por fim, discute-se como abordagens contemporâneas de análise observacional avançada, incluindo
big data, estudos multicêntricos, grafos acíclicos direcionados (DAG) e métodos de escore de propensão, podem contribuir, no futuro, para elucidar essa questão de maneira mais robusta, sem ultrapassar os limites éticos e científicos atualmente impostos.
A Proposta da Cesariana Eletiva na Nota TécnicaA recomendação de cesariana eletiva como via de nascimento preferencial para gestantes com HTLV-1 ou HTLV-2 constitui um dos eixos centrais da Nota Técnica. Ao vincular a indicação da via de parto exclusivamente ao diagnóstico de HTLV, a Nota propõe a modificação da condução obstétrica independentemente de condições clínicas ou obstétricas associadas. Essa orientação apoia-se essencialmente na plausibilidade biológica de que a cesariana poderia reduzir a exposição do recém-nascido ao vírus durante o nascimento, ainda que a amamentação seja reconhecida como a sua principal via de transmissão vertical.
2-4Entretanto, ao formular essa recomendação de maneira ampla e prescritiva, a Nota Técnica não dialoga de forma consistente com o conjunto das evidências disponíveis, que permanecem limitadas e heterogêneas, sem consenso quanto a um efeito protetor independente da cesariana. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a adoção indiscriminada da cesariana para todas as gestantes com HTLV implica custos adicionais, maior demanda por recursos assistenciais e exposição das mulheres a riscos cirúrgicos imediatos e tardios. Na ausência de evidência robusta que demonstre benefício clínico ou impacto relevante em saúde pública, tal recomendação torna-se de difícil sustentação do ponto de vista científico, ético e sanitário, o que reforça a necessidade de debate contínuo e de revisão periódica à luz de novas evidências.
5-7Limitações da Evidência Atual e a Falta de Ensaios Clínicos RandomizadosA principal lacuna na recomendação de cesariana como via de parto preferencial para gestantes com HTLV é a ausência de ensaios clínicos randomizados (ECR) que forneçam prova robusta do benefício dessa abordagem. Embora a plausibilidade biológica sugira que a cesárea possa reduzir a exposição do recém-nascido a secreções maternas contaminadas com o vírus, a evidência observacional disponível não permite sustentar com segurança uma recomendação forte. A falta de ECR nesta área torna o cenário desafiador, pois estudos observacionais, por natureza, não podem estabelecer causalidade com a mesma confiança que ensaios controlados randomizados.
O estudo de Prates
et al.,⁸ que investigou a transmissão vertical de HTLV-1, exemplifica as limitações da evidência observacional. Em sua análise, os autores identificaram cesariana como um fator protetor na análise bivariada; contudo, ao realizar análise multivariada, não encontraram associação estatisticamente significativa entre cesariana e redução na transmissão do HTLV-1. Esse achado sugere que a relação observada inicialmente pode ter sido influenciada por fatores de confusão não controlados, reforçando a cautela necessária na interpretação desses dados.⁸
Além disso, por tratar-se de estudo observacional, os dados de Prates
et al.⁸ podem ter sido influenciados por variáveis externas não controladas, como o contexto sociodemográfico, a carga viral materna no momento do nascimento, o acesso aos cuidados de saúde e a adesão às intervenções recomendadas, como o uso de fórmula em vez de amamentação. Esses fatores tornam a interpretação dos resultados mais complexa e evidenciam a necessidade de estudos com delineamentos mais robustos para confirmar ou refutar os achados disponíveis.
Impossibilidade de Realizar Ensaios Clínicos Randomizados: Considerações Éticas e PráticasA realização de ECR sobre cesariana eletiva para gestantes com HTLV enfrenta barreiras práticas consideráveis e levanta preocupações éticas substanciais, amplamente discutidas na literatura sobre ética em pesquisa cirúrgica.
9,10 A cesariana é uma intervenção cirúrgica de grande porte, com riscos significativos tanto para a mãe quanto para o recém-nascido. As possíveis complicações incluem infecções, lesões durante a cirurgia, complicações anestésicas, recuperação pós-operatória prolongada e maior risco de complicações em gestações subsequentes, como o espectro da placenta acreta.
Essa preocupação ética é ainda mais relevante quando se considera o contexto de recursos limitados no SUS, onde uma recomendação de cesárea rotineira poderia aumentar os custos hospitalares de maneira significativa, sem que se tenha uma prova concreta de sua eficácia. A inclusão de gestantes em pesquisas clínicas envolve, adicionalmente, considerações éticas específicas relacionadas à vulnerabilidade e à autonomia reprodutiva, que têm sido objeto de debate crescente na bioética contemporânea.
10-12 Além disso, em um sistema de saúde pública com escassez de leitos e pessoal especializado, a realização de cesáreas sem indicação obstétrica clara coloca pressão adicional sobre a infraestrutura de saúde.
Perspectivas Metodológicas FuturasNa impossibilidade ética e prática de ECR, abordagens observacionais avançadas oferecem caminhos promissores para investigar o efeito independente da via de parto na transmissão vertical do HTLV. Estudos multicêntricos com grandes bases de dados administrativas e clínicas, aliados a métodos de inferência causal - como grafos acíclicos direcionados (DAG) para identificação de confundidores, pareamento por escore de propensão e emulação de ensaio-alvo (
target trial emulation) - podem aproximar-se, dentro de limites conhecidos, das condições de um ensaio controlado.
13-15 Essas estratégias, já consolidadas em outras áreas da epidemiologia perinatal, poderiam fornecer estimativas mais confiáveis do efeito da cesariana sobre a transmissão vertical, subsidiando futuras revisões das recomendações vigentes.
A Evidência Atual e a Recomendação de Cesariana EletivaDiante do exposto, a evidência científica atualmente disponível não permite afirmar com segurança que a cesariana eletiva universal confira benefício líquido às gestantes com HTLV-1 ou HTLV-2. A plausibilidade biológica, embora constitua elemento legítimo na formulação de hipóteses, não substitui a demonstração empírica de eficácia e segurança, especialmente quando a intervenção proposta envolve riscos cirúrgicos conhecidos e custos relevantes para o sistema de saúde.
Cabe ressaltar que a amamentação permanece como a via de transmissão vertical mais bem documentada na literatura, e que as medidas de supressão da lactação e oferta de fórmula infantil — já contempladas na Nota Técnica — representam a estratégia de maior impacto na prevenção da transmissão vertical do HTLV.
Considerações finaisA Nota Técnica Conjunta nº 6/2025 representa um avanço importante na organização do cuidado às gestantes com HTLV no âmbito do SUS, particularmente ao reforçar a triagem sorológica, a confirmação diagnóstica e a contraindicação da amamentação como estratégia central de prevenção da transmissão vertical. Contudo, a recomendação de cesariana eletiva universal, apoiada predominantemente em plausibilidade biológica e em evidência observacional limitada, merece ser objeto de debate contínuo pela comunidade científica. A ausência de ensaios clínicos randomizados - cuja realização enfrenta barreiras éticas e práticas substanciais - não deve ser interpretada como justificativa para a adoção de intervenções cirúrgicas de rotina sem demonstração de benefício líquido.
Até que as evidências estejam disponíveis, é prudente que a definição da via de parto em gestantes com HTLV permaneça orientada por critérios obstétricos individualizados, pela decisão compartilhada com a mulher e pelo princípio da proporcionalidade entre risco e benefício.
11,12 O presente ponto de vista não pretende substituir recomendações normativas, mas contribuir para que a formulação de políticas públicas nessa área esteja amparada no debate científico qualificado, aliado à prudência metodológica e ao respeito à autonomia das mulheres.
Referências1. Ministério da Saúde (BR). Nota Técnica Conjunta nº 6/2025 – CGIST/DATHI/SVSA/MS. Dispõe sobre Orientações relacionadas à prevenção da transmissão vertical do HTLV-1/2, incluindo fluxo de testagem na gestação, no parto ou puerpério, via de nascimento e amamentação. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2025. [acesso em 2025 Dez 17]. [Internet]. Disponível em:
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Contribuição dos autoresAmorim MMR: Conceitualização, redação do manuscrito original, revisão e edição final.
Cunha ACC: Conceitualização, revisão da literatura, redação do manuscrito original.
Freitas JLB: Revisão crítica da argumentação ética e metodológica, revisão e edição.
Melo B: Revisão crítica da argumentação clínico-obstétrica, revisão e edição.
Delgado A: Revisão crítica da argumentação epidemiológica, revisão e edição.
Souza ASR: Revisão crítica da argumentação em saúde pública, revisão e edição.
Coutinho I: Revisão crítica e aprovação final do manuscrito.
Katz L: Supervisão, revisão crítica e aprovação final do manuscrito.
Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito e assumem responsabilidade pública pelo conteúdo do trabalho. O texto não representa posicionamento institucional de nenhuma das afiliações declaradas.
Disponibilidade dos dadosTodo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Recebido em 18 de Dezembro de 2025
Versão final apresentada em 17 de Fevereiro de 2026
Aprovado em 20 de Fevereiro de 2026
Editor Associado: Lygia Vanderlei