, João Guilherme Alves1

Publicação Contínua
Qualis Capes Quadriênio 2021-2024 - A4 em medicina I, II e III, saúde coletiva
Versão on-line ISSN: 1806-9804
Versão impressa ISSN: 1519-3829

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Avanços da Pediatria no Século XXI: Trajetórias, Desafios e Perspectivas

João Guilherme Alves1

DOI: 10.1590/1806-930420260S100058 e20260058

RESUMO

A pediatria no século XXI atravessa um período de profundas transformações, impulsionadas por avanços científicos, tecnológicos e mudanças sociais. A expressiva redução da mortalidade infantil, especialmente por meio dos progressos da neonatologia, das imunizações e do cuidado humanizado, modificou de forma significativa o perfil epidemiológico da infância. Paralelamente, observa-se o aumento das doenças crônicas, dos transtornos do neurodesenvolvimento e das afecções mentais, reforçando a importância do cuidado integral e precoce da criança, conforme os princípios das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD).
A incorporação da genética e da medicina de precisão permitiu maior acurácia diagnóstica, especialmente em doenças raras, ao passo que terapias gênicas e alvo-moleculares abriram novas perspectivas terapêuticas. Tecnologias digitais, como a telepediatria e a inteligência artificial, passaram a apoiar decisões clínicas, ampliar o acesso e otimizar a gestão em saúde infantil. Contudo, esses avanços impõem desafios éticos e ampliam o debate sobre equidade no acesso a tecnologias de alto custo. Entre os principais desafios contemporâneos destacam-se a obesidade infantil, a hesitação vacinal, o impacto das mudanças climáticas, a vulnerabilidade social e o aumento do sofrimento psíquico em crianças e adolescentes. As perspectivas para as próximas décadas apontam para uma pediatria mais preditiva, preventiva e personalizada, centrada nos primeiros mil dias de vida, na integração com políticas públicas e na preservação da relação médico-criança-família como eixo fundamental do cuidado.

Palavras-chave: Pediatria, Avanços tecnológicos, Saúde da criança, Telemedicina, Saúde digital, Saúde pública

ABSTRACT

A Pediatrics in the 21st century is traversing a period of profound transformation, driven by scientific breakthroughs, technological innovation, and shifting social dynamic. The significant reduction in infant mortality - driven primarily by progress in neonatology, immunization, and humanized care - has fundamentally altered the epidemiological profile of childhood. Concurrently, there is a rising prevalence of chronic diseases, neurodevelopmental disorders, and mental health conditions, reinforcing the importance of comprehensive and early childhood care, aligned with the principles of the Developmental Origins of Health and Disease (DOHaD).
The integration of genetics and precision medicine has enhanced diagnostic accuracy, particularly for rare diseases, while gene and molecular-targeted therapies have opened new therapeutic horizons. Digital technologies, such as telepediatrics and artificial intelligence, now support clinical decision-making, expand access, and optimize pediatric health management. However, these advances pose ethical challenges and intensify the debate on equitable access to high-cost technologies. Key contemporary challenges include childhood obesity, vaccine hesitancy, the impact of climate change, social vulnerability, and the escalating psychological distress among children and adolescents. Perspectives for the coming decades point toward a more predictive, preventive, and personalized pediatrics, centered on the first thousand days of life, integration with public policies, and the preservation of the physician-child-family relationship as the fundamental axis of care.

Keywords: Pediatrics, Advances in technology, Child health, Telemedicine, Digital health, Public health

Introdução

A pediatria é a especialidade médica dedicada à promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento e acompanhamento do crescimento e desenvolvimento do ser humano, do nascer ao final da adolescência. A pediatria surgiu a partir do iluminismo e do pensamento de Jean Jacques Rousseau quando a criança passou a ser vista como um ser em desenvolvimento, biologicamente vulnerável merecedor de proteção específica (Émile, ou De l'éducation – Rousseau). No século XIX foram criados os primeiros hospitais pediátricos, inicialmente em Paris (1802 – Hospital des Enfants Malades; primeiro hospital no mundo dedicado exclusivamente às crianças).1 No Brasil, a pediatria surgiu como uma resposta a uma profunda questão social, a elevada mortalidade infantil, intimamente ligada à pobreza, e associada à precariedade sanitária. O primeiro marco foi a criação da cátedra de pediatria no Rio de Janeiro em 1899. Desde então, a pediatria no Brasil vem se estruturando a partir da necessidade de proteção à infância como um patrimônio social e biológico da nação.2

No final do século XX, o perfil epidemiológico infantil sofreu modificações significativas, com a diminuição das doenças infecciosas e o aumento das condições crônicas, antes relatadas quase que exclusivamente em adultos. No século XXI, associou-se também uma maior detecção das afecções do neurodesenvolvimento, como os transtornos do espectro autista (TEA) e do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), além das afecções mentais.3 Dentro desse contexto e com a comprovação da hipótese de Barker, surgida ainda nos anos 1980, de que a maioria das doenças crônicas da vida adulta, tanto somáticas como mentais, principia na infância, a pediatria tem se revestido da maior importância.4 O cuidado integral da criança, desde os primórdios de sua vida, ainda vida intrauterina, passou a ser primordial para a prevenção das principais causas de adoecimento e morte ao longo da vida.5,6

Trajetórias e avanços recentes

Um dos avanços mais expressivos da pediatria contemporânea ocorreu no campo da neonatologia. O desenvolvimento de unidades de terapia intensiva neonatal, o uso de surfactante exógeno, a ventilação não invasiva, o corticoide pré-natal, os cuidados nutricionais especializados, além de uma melhor organização do sistema de saúde com a transferência de prematuros para centros mais avançados, contribuíram para uma maior sobrevida de recém-nascidos extremamente prematuros. Nos anos 1980, as taxas de sobrevida de um prematuro com idade gestacional de 28 semanas, eram abaixo de 70%, e hoje, atingem 94%. Nos anos 1970, o limite de viabilidade do concepto era em torno de 30-32 semanas e atualmente é possível a sobrevida a partir da 22-23 semana gestacional.7

Paralelamente, estratégias de cuidado humanizado, como o método Canguru e a valorização do aleitamento materno, passaram a integrar a prática clínica. A taxa atual de amamentação no Brasil é de 45%, enquanto nos anos 1980, atingia 4,7%das lactantes. Registre-se aqui o papel fundamental desempenhado pelo Prof. Fernando Figueira, criador do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), ao promulgar em 03/12/1974, a primeira Portaria, como Secretário de Saúde do Governo do Estado de Pernambuco, proibindo a má prática da indústria do leite em pó de distribuir latas de leite em pó nas maternidades, o que promovia o desmame em massa e de forma bem precoce. Além disso, o Prof. Fernando Figueira, como titular da disciplina de pediatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Faculdade de Ciências Médicas, hoje Universidade de Pernambuco (UPE), instituiu mudanças radicais no currículo médico, determinando o ensino intensivo do aleitamento materno e excluindo as aulas que contemplavam o estudo das fórmulas lácteas infantis. Além disso, ainda traduziu e divulgou o livro, "The Baby Killer", do jornalista/engenheiro sul-africano, Mike Muller, que retrata a estratégia criminosa da indústria láctea de promover o desmame nos países pobres em prol da venda indiscriminada de fórmulas lácteas. Por fim, fortaleceu a política de bancos de incentivo ao aleitamento materno em todo o Brasil, criando o primeiro banco de leite humano no Norte-Nordeste do Brasil em 1986.8

Na área de imunizações, o século XXI tem sido marcado pela ampliação do calendário vacinal infantil, com a introdução de várias vacinas que vêm modificando o perfil epidemiológico das doenças infecciosas na infância. As vacinas contra o pneumococo (Pneumocócica conjugada – PCV7, PCV 10, PCV13 e PCV 15/20), contribuíram para a redução da pneumonia, meningite e otite média na infância. Também foi introduzida a vacina meningocócica conjugada (C, ACWY) e, mais recentemente, na década de 2010, a tipo B. Essas vacinas proporcionaram queda expressiva da meningite e da sepse meningocócica. A vacina contra rotavírus, introduzida a partir de meados do ano 2000, ocasionou redução importante nas hospitalizações e mortes por diarreia, em especial em lactentes jovens, população mais vulnerável aos agravos infecciosos intestinais. Em 2006, a vacina HPV (papilomavírus humano), indicada para escolares e adolescentes, passou a oferecer importante proteção contra o câncer de colo do útero, pênis, ânus, orofaringe e verrugas genitais. Registre-se ainda a vacina para varicela que está tornando essa infecção uma raridade, e a de COVID-19, introduzida em 2021, para a prevenção de formas graves, SIM-P e óbitos. Mais recentemente as vacinas para dengue, incluindo produções brasileiras que abrem uma perspectiva alvissareira para o controle dessa grave arbovirose. Todas essas vacinas, impactaram diretamente as hospitalizações e óbitos por doenças infecciosas.9

A genética e a medicina de precisão também transformaram a pediatria. O avanço das técnicas de sequenciamento genético, exoma (WES) e do genoma (WGS), introduzidos entre os anos 2000-2010, proporcionaram a identificação de doenças raras e síndromes genéticas sem fenótipo clássico.10 Todas essas técnicas, aplicadas em crianças com atraso do desenvolvimento, deficiência intelectual, epilepsias de início precoce e malformações congênitas múltiplas, têm proporcionado uma maior precisão diagnóstica, mesmo nos casos mais complexos. Isso tem permitido uma mudança de paradigma: diagnóstico baseado apenas no fenótipo para diagnóstico genótipo-fenótipo integrado. A incorporação de tecnologias como espectrometria de massa em tandem, contribuíram para o diagnóstico precoce dos erros inatos do metabolismo, assim como a prevenção de sequelas neurológicas e óbitos. Foram incluídas e ampliadas as detecções de aminoacidopatias, acidúrias orgânicas, distúrbios da oxidação dos ácidos graxos e algumas imunodeficiências (Severe Combined Immunodeficiency – SCID). Acrescente-se os avanços no aconselhamento genético pediátrico com a melhor interpretação das variantes genéticas, abordagem, ética, aconselhamento livre e informado, além de planejamento reprodutivo. Também as terapias gênicas (como para a Atrofia Muscular Espinhal, aprovada em 2019), terapias alvo-moleculares (Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator – CFTR – localizado no cromossomo 7) e a oncogenética (identificação de mutações somáticas e germinativas, estratificação de risco, terapias mais direcionadas, redução da toxicidade do tratamento).11

Outro eixo relevante foi a recente incorporação da tecnologia digital. Prontuários eletrônicos, telepediatria e aplicativos de monitoramento de saúde facilitaram o acesso aos cuidados infantis, especialmente em regiões remotas. Além disso, o uso de inteligência artificial (IA) começou a apoiar decisões clínicas, interpretação de exames de imagem e estratificação de risco. A IA já auxilia na triagem de doenças raras e crônicas em crianças, acelera a interpretação de exames laboratoriais e de imagem. O emprego de algoritmos tem ajudado tanto na predição de complicações de algumas afecções como na decisão clínica personalizada, ajustando tratamentos. A IA também trouxe auxílios na gestão e organização dos serviços pediátricos, assim como na educação médica e pesquisa científica.12,13

Desafios

São muitos os desafios para a pediatria neste século, impostos pelas transições demográficas, tecnológicas, sociais e ambientais. O estilo de vida contemporâneo acarretou diversas mudanças comportamentais e dietéticas que influenciaram na saúde infantil. Como exemplos, a terceirização do cuidar da criança, o abusivo tempo de tela, a restrição de áreas de lazer e o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados. Tudo isso impulsionou as afecções mentais na infância e as doenças crônicas, antes restritas a adultos.14

Como vimos anteriormente, o avanço do sequenciamento genético vem permitindo diagnósticos mais precisos de doenças raras. Entretanto, o desafio reside na equidade, como garantir que terapias gênicas e medicamentos de alto custo cheguem à população que depende do sistema público de saúde. O sequenciamento de exoma (WES) e o sequenciamento de genoma completo (WGS), são exames com custo acima de mil dólares, cada. O riscode que a inovação tecnológica amplie o abismo da desigualdade social é plausível e será um desafio evitá-lo.15

A prática pediátrica baseada no novo paradigma de que a primeira infância é um dos principais determinantes para a saúde ao longo da vida é um desafio a ser buscado incessantemente. A consolidação do DOHaD (origens desenvolvimentistas da saúde e da doença), comprovou o impacto duradouro da nutrição nos primórdios da vida, da falta de estímulos apropriados, do estresse tóxico, da pobreza e da desigualdade, da exposição ambiental. Há necessidade de intervenções precoces, integrando a pediatria à saúde pública, à educação e às políticas sociais.16

A obesidade infantil,atuando como gatilho para hipertensão, diabetes tipo 2, síndrome metabólica e dislipidemias precoces, também é um grande desafio. A transição nutricional no Brasil vem mostrando que o excesso de peso e a obesidade na infância têm prevalência substancialmentemaior do que a subnutrição. O pediatra de 2026 deve atuar não apenas no tratamento, mas na mudança profunda dos hábitos familiares em um ambiente muitas vezes "obesogênico". A defesa intransigente de uma dieta saudável, com alimentos naturais provindos diretamente da terra e sem o ultraprocessamento da indústria alimentar, deve ser um legado do pediatra. Da mesma forma, a garantia de espaço para a criança que permita a prática de atividades físicas, é primordial.17

Apesar do grande avanço no controle das doenças infecciosas com as vacinas, as infecções ainda representam uma importante causa de morbidade e mortalidade na infância. E hoje, a hesitação vacinal associada à desinformação, constitui um enorme desafio. A queda nas coberturas vacinais, alimentada por fake news e movimentos antivacina, ameaça o retorno de doenças erradicadas, como o sarampo e a poliomielite. Recuperar a confiança das famílias na ciência através de uma comunicação eficaz, em um mundo saturado de desinformação, trata-se de um enorme desafio.9

A saúde mental tem sido impactada pelo afastamento dos pais de seus filhos, seja pela terceirização com a delegação do ato de cuidar a auxiliares em casa ou a escolas com atividades curriculares em tempo integral. Acrescente-se o tempo despendido em telas, trazendo uma falsa sensação de tranquilidade aos pais naqueles momentos, mas afastando ainda mais o convívio pais/filhos. O resultado desse pouco convívio, parece ser o aumento exponencial de casos de ansiedade, depressão, estresse e transtornos alimentares entre crianças e adolescentes. O pediatra tem o importante papel de alertar aos pais para a importância dessa companhia aos seus filhos, no dia a dia e por toda a infância.18

O diagnóstico precoce dos transtornos do neurodesenvolvimento, como oTranstorno do Espectro Autista (TEA) e do Transtorno do Déficit de Atenção e da Hiperatividade (TDAH), exige um preparo especial do pediatra para essas afecções. O reconhecimento precoce do TEA, idealmente antes dos três anos de idade, tem importantes implicações prognósticas pois pode oferecer melhorias significantes, desde que o tratamento multiprofissional tenha início de imediato após o diagnóstico. Como o reconhecimento dessas afecções é baseado no contexto meramente clínico, não existindo até hoje nenhum exame considerado como "padrão ouro", o papel do pediatra é fundamental. Também a orientação para estímulos sensoriais precoces, como a leitura pelos pais para os bebês e o toque pele a pele, entre outros estímulos sensoriais que comprovadamente ajudam de maneira importante no neurodesenvolvimento.19

A saúde da criança, também é diretamente afetada pela crise ambiental. O aquecimento global tem implicações profundas para a saúde infantil, faixa etária mais vulnerável de nossa população. A crise ambiental aumenta a incidência de zoonoses, doenças respiratórias e alérgicas, associadas ao calor extremo e a deterioração da qualidade do ar. Também o risco de desidratação, distúrbios metabólicos e agravos nutricionais são aumentados em contextos de insegurança alimentar e eventos climáticos extremos. Ondas de calor, enchentes e queimadas favorecem a ocorrência de infecções respiratórias e diarreicas, traumas físicos e sofrimento psíquico, além de deslocamentos forçados. Nesse cenário, o pediatra assume papel central na orientação das famílias para as medidas de proteção, além de ser agente de conscientização para a promoção de ambientes mais sustentáveis e resilientes para a infância.20

O pediatra se defronta ainda, com novos modelos de família e uma vulnerabilidade social crescente. O pediatra deve estar preparado para atender configurações familiares diversas e identificar precocemente sinais de violência doméstica e negligência. Além disso, a pobreza infantil continua sendo o maior fator de risco para o desenvolvimento pleno, exigindo uma visão que integre saúde, educação e assistência social.

Por fim, os limites éticos da tecnologia e da IA. Os riscos da desumanização do cuidado das crianças, o viés algorítmico e o uso indevido de dados infantis, também são importantes desafios, pois o equilíbrioentre a inovação tecnológica com a ética, a empatia e a justiça social deve ser mantido. Dessa forma, o desafio da pediatria vai além da cura de enfermidades; trata-se de preservar o potencial futuro da humanidade. Isso exige um profissional que seja, ao mesmo tempo, um técnico altamente especializado e um mediador social capaz de navegar pelas complexidades do mundo digital e ambiental.5,6

Perspectivas

A população global de crianças e adolescentes ultrapassou 1,9 bilhão agora em 2024, mesmo com a importante queda de natalidade na Europa e partes da Ásia e das Américas, incluindo o Brasil. Isso impulsiona a demanda por serviços pediátricos. Embora o número de pediatras tenda a crescer em muitos contextos, isso não garante acesso equitativo, especialmente nos países de baixa e média renda, onde a escassez permanece crítica. A pediatria deve ser global, solidária e cooperativa, explorando modelos híbridos de cuidado, telemedicina e fortalecimento da atenção primária sem perder de vista a equidade.21 Tecnologias como a telemedicina poderão ajudar a mitigar lacunas, mas esforços contínuos devem garantir a formação de recursos humanos adequados.22 Infelizmente, no momento atual, o Brasil vem dando um exemplo negativo para a formação de jovens pediatras, com a proliferação irresponsável de escolas médicas sem a devida qualidade e com mera finalidade de auferir lucros a empresários ambiciosos. Esse modelo pode gerar iatrogenias, pois o pediatra mal formado pode contribuir para gerar doenças. Essa é uma perspectiva preocupante em um momento em que se necessita de um pediatra dotado de maiores competências e habilidades e que possa atuar como educador, comunicador, cientista e defensor dos direitos da criança. Para isso, a formação pediátrica necessita de maiores competências na ética, saúde pública, ciência de dados, comunicação e pensamento crítico, sem abdicar da empatia e do compromisso moral que historicamente definem a especialidade.

As próximas décadas parecem apontar para transformações profundas na pediatria. O uso da genômica, da epigenômica e da metabolômica, paralelamente ao uso de big data e da inteligência artificial devem impulsionar para uma pediatria mais preditiva e preventiva, além de personalizada. Isso tudo, acompanhando as transformações originadas pelos avanços científicos, tecnológicos e mudanças demográficas e sociais. Entretanto, esses avanços exigirão vigilância ética constante, de modo que a tecnologia atue como ferramenta de apoio à decisão clínica e não como substituto da relação médico-criança-família, que permanece no cerne do cuidado pediátrico.23

A pediatria tende a mudar do tratamento de doenças para a promoção de trajetórias saudáveis, da intervenção tardia para a prevenção e predição precoces, do foco no órgão para o desenvolvimento integral da criança. O novo paradigma da DOHaD será um ponto fundamental, reforçando a infância como período crítico para a saúde do adulto. A pediatria está se assumindo, acertadamente, como a especialidade médica de maior importância para o controle das doenças crônicas, as principais causas de doença e morte no mundo, incluindo o Brasil. As doenças crônicas como a hipertensão arterial, a aterosclerose, o infarto e a doença vascular cerebral, não têm cura, apenas podem ser controladas. Entretanto, medidas adotadas na infância, desde os primórdios da vida, abrem uma nova perspectiva para a prevenção primária dessas afecções.24

O foco maior da pediatria deverá ser centralizado nos primeiros 1.000 dias, com intervenções precoces, ainda na vida intrauterina, na nutrição materno-fetal, na continuidade do aleitamento materno exclusivo, na inibição de alimentos ultraprocessados, em estímulos sensoriais adequados, também desde a vida intrauterina, na criação de um maior vínculo do binômio mãe-filho e da responsividade parental, além da redução do estresse tóxico. A pediatria deve ter uma integração estrutural com a educação, assistência social e políticas públicas.25

A neonatologia deve centrar seu foco na qualidade de vida, garantindo ao lado da sobrevida de prematuros extremos, um pleno neurodesenvolvimento com manutenção da função cognitiva e da qualidade de vida a longo prazo. Discussões éticas mais profundas sobre os limites da viabilidade, os direitos do feto e do prematuro, os limites da intervenção, deverão proporcionar abordagens mais maduras e compartilhadas.7

As perspectivas para a saúde mental apontam para uma atuação da pediatria cada vez mais preventiva e integrada no neurodesenvolvimento. O sofrimento psíquico deve ser alvo de triagem sistemática pelo pediatra, observando e escutando atentamente aos sinais sutis de sofrimento psíquico, alterações do comportamento, dificuldades escolares ou de relacionamento. Essa tarefa ainda inclui orientações preventivas aos pais sobre o apego, convivência familiar, rotinas, limites, sono, brincar, atividade física, uso de telas e comunicação afetiva. Tudo isso deve ter início nos primeiros mil dias de vida o que inclui avaliações pré-natais pelo pediatra no sentido de sempre procurar ambientes emocionais saudáveis. Há necessidade ainda de um cuidado baseado em vínculos e parentalidade positiva, o que exige uma maior integração do pediatra com a família, a escola, psiquiatras e psicólogos infantis, na identificação de fatores de risco (violência, negligência, pobreza, doença crônica, sofrimento parental) e acionamento de redes de apoio.26

Por fim, a pediatria terá um papel central na saúde ambiental. Os impactos das mudanças climáticas, da poluição, da insegurança alimentar e da exposição a tóxicos ambientais, colocam em risco, prioritariamente, todas as crianças, pela sua maior vulnerabilidade e pelo dano irreversível de não atingirem seu pleno potencial de crescimento e desenvolvimento. Caberá ao pediatra identificar precocemente os riscos ambientais, orientando tanto as famílias como as autoridades públicas sobre esses riscos. A pediatria deve reforçar a inseparabilidade entre a saúde da criança, justiça social e sustentabilidade ambiental.

Considerações finais

A pediatria do século XXI consolidou avanços extraordinários que ampliaram a sobrevida e melhoraram a qualidade de vida de crianças e adolescentes. Entretanto, esses progressos coexistem com desafios complexos relacionados às desigualdades sociais, às novas demandas epidemiológicas, à formação profissional e aos limites éticos da incorporação tecnológica. O futuro da pediatria dependerá da capacidade de integrar inovação científica, equidade em saúde e cuidado humanizado, reconhecendo a infância como período decisivo para a saúde ao longo da vida. O fortalecimento de políticas públicas, a atuação intersetorial e o compromisso ético do pediatra serão determinantes para transformar os avanços técnicos em benefícios sustentáveis e duradouros para as futuras gerações.

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Contribuição do autor
O autor realizou a concepção do artigo e declara não haver conflito de interesse.

Disponibilidade dos dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Recebido em 5 de Fevereiro de 2026
Aprovado em 12 de Fevereiro de 2026

À convite da Editora Chefe: Melania Amorim

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